KISS no Mineirão e as Criaturas da Noite

Era 1983 e a recém-inaugurada TV Manchete abria sua afiliada mineira. Mudei para Belo Horizonte entusiasmado e confiante na nova emissora, até porque tudo começava em ritmo de rock. Já tinha sido avisado que minha primeira pauta seria cobrir o show do Kiss no Mineirão. Parecia a matéria dos sonhos já que eu curtia a banda desde os quinze anos…

No primeiro dia, chegando ao hotel, antes mesmo de me apresentar à emissora, vi uma movimentação estranha na rua. Um grupo carregava cartazes com frases e logos do Kiss. Longe de ser uma homenagem, eram evangélicos distribuindo panfletos que diziam: “Kiss – jovens a serviço de Satanás”. Segundo eles, ao pé da letra, Kiss significava Knights In Satan’s Service. Como Minas Gerais é considerado um estado conservador, já imaginei que a matéria ia ser complicada. Além disso, gravar show é sempre mais trabalhoso porque às vezes é proibido subir no palco, você só pode gravar uma única música, as condições de gravação são ruins (escuro total), tem segurança por todo lado, gente querendo subir com você, fã pedindo pra você entregar coisa, enfim, sempre é mais complicado…

Mas apesar da má expectativa, tudo correu bem. O Kiss estava em turnê com o álbum “Creatures of the night” e comemorava os 10 anos de carreira que, a essa altura, andava em declínio. No Brasil, eles encontraram o público ideal (tanto que bateram recorde de público no Maracanã). Por ser a primeira grande banda a tocar no país, a recepção foi calorosa e os músicos esbanjaram simpatia, fazendo poses e caretas para as câmeras. Mesmo sendo fã, mantive o profissionalismo e não tirei nenhuma foto (hoje me arrependo, afinal, que diferença isso ia fazer!). Mas a verdade é que eu estava também muito impressionado com a qualidade da câmera Ikegami, zerada, a mais poderosa no mercado. Seguimos gravando a tarde toda, acompanhando cada passo dos integrantes mascarados.

E se tudo corria bem do lado de dentro, fora do estádio a confusão só ia crescendo. Um grupo de religiosos tentava convencer os jovens a não entrar no estádio. O problema é que como a apresentação havia sido cancelada na noite anterior, quem foi ao Mineirão já estava com os ânimos exaltados e queria entrar de qualquer forma. Quem conseguisse escapar dos religiosos, tinha mais uma etapa pela frente: a polícia. Como uma liminar proibia a entrada de menores de 16 anos, os policiais impediam a entrada dos adolescentes, mesmo que ele já tivesse com o ingresso na mão. Frustração, irritação, nervosismo… e aquilo virou uma confusão generalizada. Lá dentro, o cenário também era de guerra, mas tudo de mentira. A banda trouxe um tanque de guerra que soltava fumaça e Gene Simmons espirrava sangue pela boca. As 40 mil pessoas que conseguiram entrar no Mineirão acendiam seus isqueiros e formavam uma arena de céu estrelado.

Tentei achar no Youtube algum registro da Manchete, mas só encontrei uma gravação realizada pela TV Alterosa e um documentário chamado “Quem Kiss Teve” sob a direção do Tadeu Jungle. O engraçado é que depois de assistir ao documentário fiquei pensando que talvez os religiosos estivessem com a razão. O que leva a gente a gostar de músicos mascarados, que usam roupas coladas e sapato plataforma, sem entender direito o que eles estão cantando? Talvez seja mesmo coisa do demo.

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3 comentários sobre “KISS no Mineirão e as Criaturas da Noite

    • Oi Emerson,
      Uma pena, mas não tenho nem uma foto daquele dia memorável.
      Eu fiz o trabalho pela TV Manchete, mas infelizmente o arquivo deles acho que já era…
      Abraços
      Adauto

  1. Olá Adauto, eu me lembro desse show, não fui, pois ainda moro no interior, mas lembro bem que quem botou lenha no fogueira foi um programa de música da TV Alterosa que chamava-se TV Sucesso(Era apresentado por Dirceu Pereira e um outro cara que me fugiu o nome.
    Eles e os evangélicos apresentaram até NF da compra de “pintinhos”, que segundo boatos seriam devorados pela Banda e público.
    Claro que achei tudo aquilo ridículo e infelizmente por causa dessa sandice, MG ficou muito tempo fora dos grandes eventos de Rock.

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