E Lula Virou Cinegrafista

Parecia um filme noir. No escuro do saguão, eu só conseguia ver o perfil de Lula e a fumaça de seu charuto. Ele havia pedido para apagar as luzes enquanto pensava no programa eleitoral. No contraluz, eu via aquela neblina branca e ficava imaginando o que seria da campanha depois daquela dia. Era 1989, estávamos em um hotel na cidade de São José dos Campos/SP. Não era um dia qualquer. Era o dia em que a imprensa havia “descoberto” a filha ilegítima de Lula e sua ex-mulher, Míriam Cordeiro, havia dito que ele era racista e tinha oferecido dinheiro para que ela abortasse a criança.

A notícia havia caído como uma bomba no ânimo da equipe. Naquele fim de campanha, depois de percorrer quase todo o país gravando comícios e programas, dormindo durante as viagens e comendo quando dava, estávamos todos cansados. Toda a energia das pessoas nas ruas e comícios davam um gás para seguirmos trabalhando, mas não naquela dia. Meu chefe na campanha, Carlos Azevedo, pediu para que eu viajasse às pressas para gravar o direito de resposta do PT. Eu havia improvisado um estúdio no hotel, mas acertar tudo correndo era o de menos naquela hora.

Apesar do clima geral de tensão, Lula estava calmo e pensativo. Aloízio Mercadante e Luis Gushiken começaram então a apressá-lo dizendo que precisávamos gravar logo porque o candidato tinha outros compromissos na sequência. Lula apagou o charuto e chamou Mercadante: “Vem aqui, senta na bancada que agora eu é que vou gravar vocês”.

Meio sem graça, Mercadante foi até a cadeira e Lula assumiu a câmera no meu lugar. Perguntou como poderia gravar. Em seguida, disparou o REC e ficou no aguardo. Assumiu a função de cinegrafista e não queria conversa, apenas gravar seus dois assistentes.

Nem Mercadante e nem Gushiken conseguiram falar nada. “Tá vendo como é difícil ter que fechar uma idéia sobre o assunto!?”, contestou Lula. Depois disso, naquele dia, ninguém mais quis afrontar o ex-futuro-presidente.

ARTIGOS RELACIONADOS:

Profissão: videorrepórter – Vídeo jornalista, videorrepórter ou VJ é uma carreira já consolidada no exterior e que, aos poucos, passa a ter mais espaço no Brasil. No fim dos anos 80, a profissão recebeu o nome de “repórter abelha”. Já no exterior, a moda agora é ser Solo VJ. O que dá no mesmo, já que o videorrepórter trabalha praticamente Continue lendo…

Motolink –– As emissoras sempre contaram com motoqueiros que atravessavam a cidade com as fitas das matérias. Isso trazia agilidade e facilitava a vida da equipe, já que não era necessário sair correndo para chegar no deadline. Continue lendo…

Anúncios

Um comentário sobre “E Lula Virou Cinegrafista

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

w

Conectando a %s