Bastidores: O dia em que o repórter pilotou um Boeing

Era para ser um dia qualquer na redação do SBT Repórter. Cada um na sua mesa, com suas ocupações e divagações. De repente, surge Hércules Breseghello, repórter e um nome muito familiar na minha carreira (mas isso explico depois) e diz: “Adauto, arrume o equipamento porque estamos saindo para o Rio de Janeiro”

O programa era sobre misticismo e íamos gravar uma senhora que confeccionava e vendia medalhas milagrosas. Eu nem imaginava que, durante o pouso no aeroporto Santos Dumont (RJ), seria eu a pedir desesperadamente por um milagre. Aliás, a hora do pouso é uma hora engraçada. Tem gente dormindo, comendo, lendo, paquerando, indo ao banheiro e alguns, como eu, rezando. Hoje não tenho mais medo, mas naquele tempo, ainda tinha receio do avião cair e deixar minhas crianças órfãs.

Mas naquele dia, a reza teve um motivo real. O vôo de São Paulo ao Rio de Janeiro corria de maneira tranquila, até a aeromoça dizer: “Você está sendo aguardado na cabine. Vou conduzi-lo até lá”. Como assim? Eles sabiam que eu trabalhava em uma emissora de TV. Será que o piloto havia morrido? O que eu poderia fazer? Melhor chamar um médico.

Fui caminhando até a cabine e, para minha surpresa, na cadeira do piloto estava o repórter. Breseghello estava pilotando um Boeing! Não acreditei. E agora? Agora vamos morrer mesmo…

Mas em segundos, tudo foi esclarecido. O piloto estava lá, vivo, pedindo pra eu sentar em um banco improvisado. Explicou que Breseghello havia sido professor dele na escola de aviação e que era considerado um mestre por todos. Tudo bem, tudo esclarecido, mas agora ele já podia assumir o comando. Afinal, o piloto é o funcionário da companhia aérea, responsável pela aeronave, pelas pessoas, pelo pouso em um aeroporto tão difícil quanto o Santos Dumont… Mas o repórter continuava no comando. Eu via o avião descendo, o mastro do navio bem perto, o mar no fim da pista, e pensava: “Estamos mortos”.

Comecei a rezar por um milagre. Que podia ser o piloto assumir o comando. O repórter deixar de ser exibido. O co-piloto ter um momento de rebeldia e acionar o botão de emergência. Queria que alguém pudesse nos salvar de lá, daquela cabine de avião. Mas o herói foi mesmo o repórter Breseghello. Ele desceu o Boeing de forma tranquila, perfeita e ainda economizou 20% de combustível no pouso. Um mestre de verdade.

Depois do desembarque, pedi pra ele assinar minha passagem porque eu iria guardá-la como um talismã, uma medalha milagrosa. No ticket aéreo está a frase: “E ai Adauto? Depois de hoje aumentou ou acabou o medo de voar?”.

Nota:
Hércules Breseghello era um nome muito conhecido nas emissoras de televisão porque ele alugava equipamentos. Trabalhei muito com uma Paillard Bolex que era dele, em 1976, na Rede Globo. Mas só fui conhecê-lo mesmo no SBT em 1999.

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4 comentários sobre “Bastidores: O dia em que o repórter pilotou um Boeing

  1. Adauto, saudações.

    Vc tem notícia do Hércules ?

    Éramos amigos no Aeroclube de São Paulo, e em 1972 narrou um audiovisual para a primeira ExpoAeroInternacional. Faz tempo.

    Abraço
    @Limarco

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